Cenário Macro

Por que o spread bancário brasileiro é um dos maiores do mundo

O banco capta a 14,25% ao ano e empresta a 424% no rotativo. Entenda os cinco componentes do spread que o Banco Central publica mensalmente.

Contexto

Existe um índice que o Brasil ocupa no ranking internacional com consistência e sem orgulho: o spread bancário.

O spread bancário é a diferença entre o que os bancos pagam para captar recursos e o que cobram para emprestá-los. É, em essência, a margem bruta da operação de crédito. E no Brasil, essa margem está entre as maiores do mundo — documentada pelo Banco Central do Brasil e pelo Banco Mundial em publicações recentes.

Os números que o BCB publica

O Banco Central divulga mensalmente a decomposição do spread bancário por modalidade de crédito. A taxa média das concessões de crédito livre para famílias fechou 2025 em 56,4% ao ano. Para empresas, em 24,6%. A média ponderada entre pessoas físicas, pessoas jurídicas, crédito livre e direcionado ficou em 31,9% ao ano.

Com Selic a 14,25% ao ano — o custo de referência do dinheiro na economia — o spread médio das operações de crédito livre para famílias está em aproximadamente 42 pontos percentuais acima da Selic.

Nos Estados Unidos, com política monetária em 5%, o spread bancário médio no crédito ao consumidor é inferior a 10 pontos percentuais. Na Europa, ainda menor.

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Os 5 componentes do spread bancário no Brasil

O Banco Central decompõe o spread em cinco fatores:

1. Risco de inadimplência: a maior parcela. O banco precisa compensar os devedores que não pagam cobrando mais dos que pagam. Com 81,7 milhões de inadimplentes, o risco sistêmico é alto — e vai para a taxa de todo mundo.

2. Cunha fiscal: impostos sobre operações financeiras (IOF, PIS/Cofins, IR sobre lucro). O governo tributa a intermediação financeira, e esse custo é repassado ao tomador.

3. Custo administrativo: estrutura de agências, pessoal, tecnologia, compliance. Bancos brasileiros têm estruturas operacionais caras, especialmente comparados a fintechs.

4. Compulsório: o Banco Central exige que os bancos depositem uma parcela dos depósitos no próprio BCB sem remuneração ou com remuneração abaixo do mercado. Esse custo de "dinheiro parado" é embutido no spread.

5. Margem de lucro: o que sobra depois de cobrir os quatro itens acima. Os cinco maiores bancos brasileiros consistentemente registram lucros líquidos acima de R$ 25 bilhões por ano cada um.

Por que o Brasil não consegue reduzir o spread

É um ciclo circular: spread alto gera crédito caro. Crédito caro gera inadimplência. Inadimplência alta justifica spread alto. E o ciclo recomeça.

Para sair, seria necessário reduzir simultaneamente o risco de inadimplência (que exige educação financeira, regulação de crédito e recuperação judicial eficiente), a cunha fiscal (que exige reforma tributária) e o custo do compulsório (que o BCB reluta em reduzir por razões de política monetária).

Nenhuma dessas reformas é simples ou rápida.

O que o consumidor pode fazer

A única saída individual do spread bancário elevado é evitar os produtos de maior spread: rotativo do cartão (424,5% ao ano), cheque especial (134,2% ao ano) e crédito pessoal sem garantia.

E buscar alternativas que removem o banco da equação: consórcio para bens de longo prazo, crédito com garantia para capital de giro, negociação direta para dívidas já existentes.

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